30 janeiro 2017

REVIEW | Bando de Corvos, Anne Bishop



Título Traduzido: Bando de Corvos
Autor: Anne Bishop
Editora: Saída de Emergência
Data desta edição: 2016
Páginas: 416
ISBN: 9789896379209
Classificação Pessoal: 
Goodreadsaqui

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Nesta nova série somos transportados para um mundo habitado pelos Outros, seres sobrenaturais que dominam a Terra e cujas presas prediletas são os humanos. 


Depois de conquistar a confiança dos Outros que habitam Lakeside, Meg Corbyn teve alguma dificuldade em perceber o que significa viver entre eles. Como humana, Meg deveria apenas ser tolerada como presa, mas os seus dons como cassandra sangue tornam-na algo mais. 

A aparição de duas drogas aditivas foi a faísca que desencadeou a violência entre os humanos e os Outros, resultando em mortes para ambas as espécies nas cidades limítrofes. Quando Meg tem um sonho sobre sangue e penas negras na neve, Simon Wolfgard – o líder metamorfo de Lakeside – pergunta-se se a profetisa de sangue sonhou com o passado ou uma ameaça futura.

À medida que as profecias se revelam a Meg, cada vez mais intensas e dolorosas, as intrigas adensam-se em Lakeside. Agora, os Outros e o punhado de humanos que aí residem terão de reunir forças para parar o homem que se assume como o verdadeiro profeta de sangue – e extinguir o perigo que ameaça destruir todos os clãs. 

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Este é o segundo livro da série Os Outros, da já famosa autora Anne Bishop. A minha estreia com esta senhora aconteceu com Letras Escarlates, o primeiro volume desta série e... não poderia ter começada de melhor forma!

Já vos falei deste primeiro livro aqui, por isso, com esta opinião não me vou alongar muito muito, uma vez que é a continuação da série e podem ocorrer alguns spoilers.


A HISTÓRIA
Neste livro, continuamos a acompanhar as aventuras da nossa Meg. Esta personagem continua a trabalhar em Lakeside e a trama continua a desenrolar-se à volta das suas visões. Meg é uma Cassandra de Sangue e, de cada vez que faz um corte na sua pele, consegue visualizar acontecimentos futuros. Uma vez mais, com a ajuda dos que a rodeiam, vai tentar impedir o pior e salvar algumas vidas.


A par disto, continuamos a tentar descobrir o que anda a acontecer por aqueles locais, com o aparecimento da nova droga que tem efeitos nocivos naqueles que a consomem. A tensão entre os Outros e os humanos aumenta, o que faz com que o leitor não consiga evitar virar a próxima página, para saber o que vai acontecer.


AS PERSONAGENS
Continuo a adorar a Meg -  que personagem encantadora e doce. É impossível não gostarmos dela! A autora conseguiu construir tão bem esta personagem que se torna fácil compreender a relação e o carinho que os Outros têm por ela, uma vez que, até nós leitores, partilhamos esse mesmo sentimento.
Neste livro aparecem novas personagens, algumas bastante curiosas mas, todas elas, com um papel no desenrolar da narrativa. O que só prova que nada é deixado ao acaso nestas páginas.



Outro ponto a favor desta série é que a autora consegue criar um acontecimento clímax, uma intriga, e fecha a sua resolução no mesmo livro. Ou seja, a maior parte dos conflitos resolve-se durante a leitura que estamos a fazer e raras são as pontas que ficam soltas e à espera do volume seguinte. E esta é, sem dúvida, outro dos aspectos a louvar na autora. Gosto de viver o mistério e a intriga no livro, mas gosto que a minha curiosidade como leitora seja saciada e que a maior parte desses mistérios sejam solucionados. É importante que algo fique no ar, de forma a motivar-nos a leitura do volume seguinte, mas gosto que algumas pontas não fiquem soltas.


No que respeita à relação entre Meg e Simon, wow! Neste volume vemos os laços entre eles a crescerem mas, sem nada de muito concreto. Até agora, esta está a ser uma das relações de que mais tenho gostado nos livros de fantasia: não há um evoluir de sentimentos de forma muito repentina, nem um insta love. É uma relação que se vai construindo aos poucos e de uma forma muito especial, muito verosímil. Adorei a forma como Simon tem sido uma peça importante na "recuperação" de Meg, ajudando-a a evitar os cortes e preocupando-se com o seu bem estar.


Uma história que vai ficando ~ atrevo-me a dizer ~ cada vez melhor à medida que avançamos na leitura e nos volumes que vão sendo publicados. Uma autora que escreve com mestria, que nos consegue envolver naquele mundo e criar empatia com as suas personagens; um mundo rico de imaginação, trazido para estas páginas através de uma escrita deliciosa.


Acho que já deu para entender que esta saga continua a ser uma das minhas favoritas de sempre, não dá? Se gostam de livros de fantasia, não percam!

Mais uma vez, quero agradecer à Saída de Emergência por gentilmente ter cedido esta obra para uma review verdadeira. Obrigada pela confiança e pela oportunidade que me deram.




31 dezembro 2016

REVIEW | Letras Escarlates, Anne Bishop


Título: Letras Escarlates
Autor: Anne Bishop
Editora: Saída de Emergência
Data desta edição: 2015
Páginas: 510
ISBN: 9789896377397
Classificação Pessoal: 
Goodreads: aqui
Temáticas: 



Este foi a minha estreia com a autora e, digo-vos já, fiquei fascinada, não só pela sua escrita, como pela imaginação e criatividade.


Este livro traz-nos a história de convivência (ou não!) entre os humanos e os Outros, seres sobrenaturais que dominam Namid. Aqui, os humanos não são mais do que mera carne para estes seres e, à mínima falha, viram as suas presas. No entanto, apesar de os Outros serem reconhecidamente mais fortes, a sua relação mantém-se num certo equilíbrio, com o reconhecimento de que ambas as partes possuem bens necessários, uma à outra: os Outros possuem água e terra; os humanos, tecnologia. 


Logo no início da história entramos no Pátio de Lakeside, com Meg, uma fugitiva que vem procurar refúgio por aqueles sítios e que vai acabar por modificar a relação entre os seres humanos e os Outros (uma diversidade enorme de metamorfos: ursos, lobos, corvos, falcões, coiotes, ...). Lakeside é um espaço de convivência entre eles e é gerido por Simon que acaba por contratar Meg como Intermediária (um posto que consiste basicamente em trabalhar com a distribuição de correspondência e encomendas), apesar de se aperceber de que Meg é diferente dos restantes humanos que já conheceu.

Lakeside é regido por regras bem definidas, num sistema social e político muito bem descrito pela autora. Tudo é apresentado de forma consistente, não há pontas soltas, o que me agradou bastante.

À medida que o tempo vai passando, Meg começa a realizar o trabalho como nunca ninguém antes o havia feito e vai sendo acarinhada por todos os habitantes e pelos humanos que diariamente entregam encomendas para serem distribuídas naquela região. Gostei bastante da forma como a autora conseguiu transmitir esse carinho entre Meg e todos eles, um carinho que também acaba por ser partilhado por nós, leitores, que acompanhamos a descoberta do mundo por esta rapariga, que viveu tanto tempo encarcerada. Meg é curiosa e muito observadora, ao mesmo tempo doce e receosa, em determinadas situações - bastante compreensível, já que está a descobrir o mundo pela primeira vez.


É Meg quem vai desvendar algumas profecias do que está para acontecer àqueles metamorfos. Mas será que ela vai conseguir protegê-los de tudo o que de mal está para vir? Isso já terão que descobrir por vocês 😏 .


As personagens estão muito bem concebidas e caracterizadas, mesmo de forma indirecta, através das suas acções e pensamentos. Por exemplo, adorei o facto de não termos aqui a imagem do lobo fofinho; temos um lobo com sentimento, sim, mas que mantém a parte da fera e o seu instinto animal, que olha para um humano com os olhos de presa e que o vê como alimento. Simon mantém sempre a posição de alfa e está sempre à frente das decisões em prole da sua comunidade. Gostei muito da relação que se foi criando entre Meg e Sam, uma personagem enternecedora e cativante que Meg acaba por transformar.


No que respeita a Tess, está envolta em mistério e o final do livro deixa-nos ansiosos por explorar o que aí vem a seguir. Adorei as Elementais e o seu papel na história, assim como os Póneis, especialmente no episódio em que eles resmungaram por não haver mais açúcar e tentam passar uns à frente dos outros, na fila, para conseguirem a sua recompensa. Asia é a vilã da nossa história e, como boa vilã, é interesseira, manipuladora e falsa. Embora pouco explorada, esta personagem está também muito bem construída.

E o romance? Apesar de haver ali uma relação muito próxima entre duas personagens, não há nada de muito específico. É tão bom encontrar um história em que o romance não seja a preocupação principal do autor!



É impossível não gostar deste mundo. Tudo tão bem construído e fundamentado, criações de personagens incríveis, situações, espaços... tudo! Só vos posso dizer: que imaginação! E que mestria, na hora de passar tudo para o papel! Este é, sem dúvida, um dos melhores livros de fantasia que li este ano e vai entrar para os meus favoritos de sempre. 

14 dezembro 2016

REVIEW | História em Pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar, de Maria Cecília


Título: História em Pedacinhos - as casas da minha infância e os tempos de chá sem açúcar
Autor: Maria Cecília
Editora: Chiado Editora
Data: 2016
Páginas: 160
ISBN: 
Classificação Pessoal: 
Goodreads: aqui
Temáticas: Infância, família, emigração, 


Foi com grande entusiasmo que aceitei o convite proposto pela autora para a leitura do seu livro, editado no verão deste ano. A sinopse despertou-me o interesse e - tenho que ser franca convosco -  a capa também! A propósito, não é linda?


Posso começar esta opinião a dizer que adorei fazer esta leitura? 💓 Cinco estrelas!

Como o próprio título nos desvenda, esta é a história em pedacinhos, com capítulos curtinhos e inúmeras peripécias, da nossa protagonista: uma menina que inicia a narrativa com seis anos e que vai recordando diversos episódios passados. Uma menina que vamos vendo crescer, ao longo daquelas páginas e de todas aquelas lembranças.


A autora traz-nos a história de uma família que se vê obrigada a emigrar do país, em busca de uma melhor qualidade de vida, "o lugar propício para realizar todos os sonhos, uma terra jovem e próspera à beira do mar das Caraíbas, deslumbrada pela riqueza do petróleo, onde tudo parecia ser possível" (pág. 21)

O primeiro a viajar é o pai e, algum tempo depois, a esposa e a filha, abandonam a ilha da Madeira para se lhe juntarem. Marcou-me a leitura da passagem em que ela,  que desde pequenina se habituou a viver sem o progenitor, está agora ansiosa por conhecê-lo, esperando que quando o momento chegar se faça um clique e ela instantaneamente o reconheça:

- Olha ali! É aquele! O da camisa amarela!
Sei que olhei, acenei... e fechei dentro de mim 
uma amálgama de sentimentos e emoções inexplicáveis. 
Nesse momento, descobri que o meu pai era, afinal, 
um estranho, um estranho de camisa amarela, um rosto 
igual a outros tantos... não se deu o milagre. 
(pág. 17)


É na voz desta menina que vamos conhecendo a sua história de vida, que é também a história dos seus pais e dos irmãos que vão nascendo (no fim serão oito!), da terra onde vive e daquela que deixou, mas que visita regularmente através das memórias que a mãe partilha consigo. No fundo, é uma história de vida, com o primeiro amor; a presença da religião; a escola e as dificuldades sentidas num país onde mal se fala a sua língua; as dificuldades económicas com o aparecimento de ditaduras nos finais dos anos cinquenta; a opressão e o medo sentidos; a constante ruína dos negócios e empregos do progenitor que foram obrigando a família a mudar-se para cidades diferentes, por diversas vezes. E com o falhanço desses negócios, o apagar de um sonho (comum a tantos emigrantes) de construção de uma casinha na aldeia...

A casa onde habito não é a casa onde moro. 
(pág. 71)



Apesar de viver algumas das dificuldades dos pais e de ter sido uma menina que se viu obrigada a crescer rapidamente pelas circunstâncias da vida, a nossa protagonista brincava a subir às árvores (pelo menos até ser apanhada por um enxame de vespas!) mas também gostava de ler jornais e revistas "particularmente as Selecções do Ryder Digest que o meu pai comprava todos os meses" (pág 106), tendo sido através dessas publicações que conheceu algumas das principais obras da literatura mundial. É curioso como conseguimos ver claramente o crescimento e amadurecimento desta personagem, ao longo da história.


Enfim, trata-se de um livro cheio de pequenas memórias, rico em histórias simples e comuns às nossas, pelo que tenho a certeza que se vão conseguir rever em inúmeras das situações apresentadas. Um ponto a favor para se conseguirem relacionar com esta bela personagem, tão bem construída.


A escrita é simplesmente deliciosa. É fluída e simples, parece que sentimos a autora sentada conosco a contar-nos pessoalmente estes episódios. Senti-me bastante próxima do que nos é contado e das personagens que habitam nestas linhas. Para além disso, tem pitadas de humor e ironia e, por uma ou outra vez, consegue-se perceber o engenho de dizer algumas das coisas nas entrelinhas.



E a capa? Já vos disse que adoro? 😀  A Chiado está de parabéns!

E podia continuar por aqui a falar-vos sobre esta minha leitura. Podia, mas não vos quero estragar a surpresa.


Um livro recomendadíssimo para quem gosta de histórias bonitas (embora nem sempre doces!) de vida. Lê-se super rápido e aposto que não vão conseguir parar.

E o final? Fica assim um cheirinho que me levou a pensar que esta história poderia ter continuação. Será? Por favor! Gostava de saber o que aconteceu a esta menina que acabou por partir à descoberta de um novo mundo...

O que importa é que estou no mundo. Do lado de fora.
(pág. 160)

08 dezembro 2016

REVIEW | O lar da Senhora Peregrine para crianças peculiares, de Ransom Riggs


Título: O lar da senhora Peregrine para crianças peculiares
Autor: Ransom Riggs
Editora: Contraponto
Data: 2012
Páginas: 344
ISBN9789896661281
Classificação Pessoal: 
Goodreadsaqui
Temáticas: Amizade, fantasia, superação das nossas dificuldades 


Quem me dera começar esta opinião dizendo que adorei esta história, de tantas expectativas que tinha em relação à mesma. Mas não foi isso que aconteceu...

A meu ver, este livro prometia ser macabro, não só pela intriga com crianças com habilidades peculiares, como pelas fotografias.  ~ A sério, estas fotos quase que me dão um arrepio na espinha!!  ~ A sinopse assim o prometia:


Neste livro, encontramos a história de Jacob, um rapaz de 16 anos que cresceu a ouvir as histórias mirabolantes do avô, sobre um orfanato para onde ele tinha ido, na época da guerra, depois de perder a sua família. Nessa casa acabou por fazer novas amizades e conhecer crianças com habilidades bastante especiais. 


Anos mais tarde, Jacob acaba por ter contacto com algumas das fotografias que o avô lhe tinha mostrado. Fotos antigas, a preto e branco, onde se podiam ver algumas dessas crianças "especiais". Agora, mais velho, consegue detectar alguns erros naquelas imagens, algumas montagens que não tinha percebido quando era mais pequeno. Acaba por concluir que a restante família talvez tivesse razão em achar que o avô tinha uma mente muito fantasiosa.

Depois de algumas idas ao psiquiatra e de não conseguir ultrapassar alguns dos pesadelos que começou a ter, decide fazer uma visita à ilha onde se encontra o lar onde o avô viveu durante alguns anos. E aí a aventura começa...



Muitas pessoas se queixam do ritmo lento deste livro. Tenho de concordar... arrasta-se um pouco a intriga naquelas páginas iniciais. No entanto, no meu caso, a curiosidade era tanta que queria ver onde é que aquilo ia dar..


E... a expectativa acabou por não ser cumprida. Apesar da escrita de Ransom Riggs ser bastante simples e cativante, a história não me convenceu. As fotos não funcionaram comigo, senti-me perdida no meio de realidade e fantasia: as fotos puxavam-me para o mundo real e o ambiente da história, para a fantasia. Mas não me consegui encontrar ali pelo meio. 

Com grande pena minha, também não me consegui relacionar com as personagens. Não adorei a caracterização, não consegui criar qualquer sentimento por nenhuma delas 😟 Pareceram-me muito superficiais, nem vos sei explicar...


Para além disso tudo, acabei por conseguir descobrir ali algumas das peripécias e revelações de personagens que se iam passar mais à frente.

No que concerne à parte gráfica, a editora está de parabéns: o livro é lindíssimo! Acho que conseguem perceber pelas fotos...


Apesar da originalidade, achei a história muito... básica. E é pela originalidade do tema e escrita que dou as 3 estrelas.


No entanto, o segundo livro da série foi-me oferecido por uma amiga e vou, com toda a certeza, lê-lo. Talvez tenha uma grande surpresa quando pegar nele (espero que sim!).


23 novembro 2016

REVIEW | O último dia de um condenado


Título Original: O último dia de um condenado
Autor: Victor Hugo
Editora: Prefácio
Data: 2002
Páginas: 160
ISBN9789898231130
Classificação Pessoal: 
Goodreadsaqui
Temáticas: Consciência, liberdade, justiça


Sabem há quanto tempo tenho este livro na minha estante? Há anos... já estava farta de lhe limpar o pó. Por isso, resolvi pegar-lhe...

Primeiro livro que li do Victor Hugo e... estou rendida! Que clássico tão delicioso de se ler... tão forte, tão cru e, por vezes, tão tocante.


Tal como o próprio título nos indica, esta é a história das últimas horas de um condenado à morte; um homem que afirma ter uma doença, "uma doença mortal, uma doença feita pela mão dos homens" (pág. 45). Regista, por isso, os seus pensamentos e a sua vivência na prisão, até ao dia da sua execução. Tal como o autor indica, este livro "não é mais do que uma defesa, directa ou indirecta, como se quiser, da causa da abolição da pena de morte" (pág. 141).

(...) os homens são todos condenados à morte 
com adiamento indefinido. 
Que foi então que mudou assim tanto na minha condição?
(pág. 13)

Fechado dentro de quatro paredes, afirma que "tudo é prisão à minha roda; encontro prisão sob todas as formas, tanto sob a forma humana como sob a forma de grade ou de ferrolho. Este muro é a prisão em pedra; esta porta é a prisão em madeira; estes carcereiros são a prisão em carne e osso. A prisão é uma espécie de ser horrível, completo, indivisível, meio casa, meio homem" (pág. 57).


Dentro dessa prisão, o condenado apercebeu-se que o tratamento que anteriormente fora de alguma aspereza, acabou por se ir modificando com o passar dos dias, até que consegue descobrir o dia da sua execução pelo comportamento dos que o rodeiam... o dia em que o director da prisão em pessoa o visita e pergunta "em que poderia ser-me agradável ou útil" (pág. 55). Seguindo-se a visita do padre, para lhe dar uma última benção:

-Meu filho - disse-me ele -, estais preparado?
Respondi-lhe em voz fraca:
- Não estou preparado, mas estou pronto.
(pág. 59)

Gostei desta ironia que o autor conseguiu transmitir, não só através das suas palavras, mas também das acções destas personagens, conforme o dia da execução ia chegando. Como se, de alguma forma, elas se sentissem culpadas e benevolentes com o condenado e, de certa forma, até com peso na consciência, pela acusação. Para além do padre e do director da prisão, há um arquitecto que vai medir as paredes, para uma remodelação e que informa - como se isso fosse interessar a uma pessoa que vai ser decapitada em poucas horas - que "dentro de seis meses esta prisão estará muito melhor" (pág. 89) e um novo guarda que acredita que "os mortos que perecem assim vêem a lotaria antecipadamente" (pág. 92). 



E no meio disto tudo, sabermos que bastaria apenas uma única palavra do rei para que esta execução fosse cancelada, sentimo-nos arrebatados por um sentimento de compaixão pelo protagonista. O sentimento mantém-se quando este homem nos fala da sua filha Maria que já não via há um ano e que, aquando da sua visita ao calabouço, ela já não mais reconhece o pai. A dor é partilhada com a personagem e é esmagada pela descrição deste episódio.


E eis que chega o momento tão esperado. Num ambiente descrito quase como uma festa, inúmeros habitantes deslocam-se ao local público da execução, prontos para o espetáculo. Mas nem aí o autor se priva da sua ironia:

"(...) o arrepio causado pelo aço ao tocar-me o pescoço, 
fizeram estremecer os meus cotovelos e obrigaram-me 
a soltar um urro abafado. A mão do executor tremeu.
- Senhor - disse-me ele -, peço-lhe desculpa! Magoei-o?
Estes carrascos são mesmo homens muito afáveis."
(pág. 132) 


Um livro escrito de uma forma brilhante e simples, que nos faz reflectir sobre a justiça e a crueldade do acto da pena de morte, assim como o papel da sociedade no meio disto tudo.

"Mas, há quem replique que é necessário que a sociedade se vingue, 
que a sociedade castigue. 
Nem uma coisa nem outra. A vingança sabe ao 
indivíduo, o castigo a Deus.
A sociedade está entre ambos. A punição está acima dela, 
a vingança abaixo. Nada de tão grande ou de tão 
pequeno lhe assenta bem. Ela não deve "punir para se vingar"; 
deve corrigir para melhorar".
(pág. 153).


Um livro que toda a gente devia ler!

Cinco estrelas... gordinhas!